domingo, 24 de maio de 2009

nem tudo da pra saber

Acordava cedo, rezava o terço ainda na cama, vestia-se e preparava o café. antes de começar a comer abria a porta da sala , as portas ficavam abertas, escancaradas, o dia todo, era o sinal de que seus moradores estavam prontos para receber quem quisesse chegar, era só ir entrando e chamando pelo nome. Era assim na cidade toda.




Seus cabelos já haviam branqueado há muito tempo, ela os usava sempre arrumados , passava agua de anil após a lavagem, para que não ficassem amarelados. As unhas eram feitas toda semana e pintadas de um rosa claro, o batom não podia faltar, nem o perfume. A roupa era simples, vestidos confortáveis, sapatos baixos, pois era muito ativa no trato da casa e adorava cozinhar.



Antes do jantar, tomava seu banho e vestia uma roupa mais caprichada e sapatos com um pouco de salto, não muito, pois não queria correr o risco de se desequilibrar. Não confiava muito nas pernas e dizia: "sabe como é, velho cai, quebra uma perna, fica de cama, pega pneumonia e morre". Esperava o marido voltar do trabalho e depois do jantar caminhavam pelas ruas de braços dados e passos lentos, conversavam com quem encontrassem pelo caminho, afinal conheciam todo mundo.



Nas horas vagas fazia croché ou lia. Gostava dos romances açucarados e de Jornal. Lia o jornal todo dia, teve mais estudo que a maioria das mulheres de sua epóca. Tentava ser a melhor em tudo que fazia, gostava da admiração. Era dramática, e como era.! Quando muito contrariada e sem saída, "desmaiava" e ai o caos estava instalado, era um corre-corre, esfrega álcool, abana, etc. Durante anos as coisas foram assim, e durante anos a família toda ficava assustada, mas...algo incomodava, despertava uma certa hostilidade e os comentários sobre o genio forte e a dramaticidade,



Com certeza ninguém sofria como ela. Era só reclamar de uma dor ou um mal-estar e já ouvia: "Ah se você tivesse tido a dor que tenho nas costas..."e desfiava suas mazelas, suas cirurgias, seu bico de papagaio, a água no joelho, etc, falava dessas dores, mas não falava de outras dores, dos tempos dificeis, das humilhações que passou, dos desencantos que teve, dos filhos que perdeu.




Nunca consegui saber se todo aquele desfilar de sofrimento fisico era uma tentativa de consolo ou a necessidade de ser mais, mesmo que este mais fosse sofrimento.

4 comentários:

Babel disse...

Quer saber...se ela ainda existe, mande mil beijos.

angela disse...

e ela mereceria mil beijos, dei o maxímo que pude.

Eduardo Prado disse...

Lindo texto.

angela disse...

que bom que gostou.
Obrigada pela visita