domingo, 12 de julho de 2009

Entre a não existência e o desaparecer para sempre


Marcia dirigia seu carro, meio desagradada. Não bastasse o transito difícil de São Paulo ela se dera o luxo de errar a rodoviária. Foi para a da Barra Funda, quando deveria ter ido para a do Tiête. Pensava se o engano significava alguma coisa. Culpa, talvez?
Ela estava indo buscar seu "caso", que vinha de Curitiba para vê-la. Havia dado uma desculpa em casa e lá estava ela tentando entender o que fazia ali. Seu casamento era bom, o marido gostava dela, as coisas estavam indo bem e ai um dia a insatisfação apareceu. Não entendia o por quê e ninguém entenderia. Todos diriam:" Insatisfeita com o que?' "Você não tem o que reclamar!", mas algo começou a faltar e ela não conseguia saber o que era. Maldito movimento, as coisas nunca se estabilizam dentro da gente por muito tempo e ai começam a se mexer e a incomodar como areia no olho. Impossível de esquecer!
Aí arrumou este amante, amigo de outros tempos. Eles se reencontraram por acaso em uma agência bancaria, os dois já em idade madura. Ficaram fazendo companhia um para o outro enquanto aguardavam atendimento e tentaram por em dia o que sabiam dos amigos comuns e os acontecimentos de muitos anos.
A conversa transcorria agradável e resolveram tomar um café, foram para o "Franz" e entre muitos cafés a conversa foi ficando mais intima, falaram de si e de suas famílias. Foi uma tarde muito gostosa e Marcia percebeu que estava alegre, rindo á toa, como nos tempos da Faculdade. Chegou a hora que precisou voltar para casa e trocaram telefones e e-mail. Carlos ficou de procura-la quando retornasse a São Paulo.
Os e-mail começaram tímidos, tipo: ""Como você esta? Assisti um filme muito bom, quando passar aí, não perca, etc". foram se tornando mais íntimos, mais confidenciais e mais maliciosos. Bem...quando ele retornou começaram o "caso" . A insatisfação de Marcia desapareceu, seu pensamento estava ocupado com os e-mail, os telefonemas e os encontros e assim foi por três anos e agora lá estava ela passando por baixo do viaduto Antartica, retornando para pegar Carlos no metro, seu engano não dava para ser corrigido sem perder muito tempo e tinham resolvido que seria melhor ele pegar o metro e ela o buscaria na estação Consolação.
O transito estava realmente lento e Marcia seguia pensando e observou alguns volumes embaixo do viaduto, sabia que eram pessoas dormindo enroladas em cobertores, a noite estava fria. Lembrou-se do incêndio que havia acontecido alguns anos atrás e que deixou o viaduto interditado por um bom tempo, muita gente morava ali e tinham acendido um fogo para se aquecer (se a memoria não estiver falhando) e pensou que esta situação só tinha piorado, cada vez tinha mais gente morando na rua e isto a deixava triste. Neste instante viu um rapaz andando com uma mochila nas costas e um outro saiu do meio do cobertor andando meio trôpego e com a precisão de animal predador arrancou a mochila das costas do rapaz, que quando entendeu o que acontecia ele já estava longe do outro lado da rua. O rapaz colocou as mãos na cabeça e com o olhar espantado e desesperado fez menção de correr atrás. O transito deslanchou bem naquele momento e os carros começaram a andar impacientes e Marcia teve que seguir sem saber como iria acabar esta historia, mas também não sabia como iria terminar a sua.
Pensou que importância teria isso daqui três gerações? Será que algum bisneto saberia seu nome? O bisneto do rapaz saberia que ele foi roubado embaixo do viaduto? Pensou que o grande manto do esquecimento estava reservado para eles, pessoas comuns. A insatisfação voltou a instalar-se dentro dela.
(pintura de Dali)

17 comentários:

Dalva M. Ferreira disse...

Vários conflitos se desenrolando ao mesmo tempo. Assim é a vida e assim é o mundo: um mosaico de fatos, de dramas individuais e coletivos. Legal.

manuel marques disse...

Todos os conflitos começam na insatisfação física (ou na tortura) da solidão e da parcialidade .

Abraço.

Angela Guedes disse...

Oi Ângela!!!
Na maioria das vezes, os maiores conflitos que enfrentamos em nossas vidas não são com os outros, mas sim com a gente mesmo.
Desejo uma semana muito especial para você!
Beijinhos.
Ângela

angela disse...

Dalva
Um grande mosaico, isso quando da pra juntar os pedaços...
beijo

angela disse...

Manuel
Não da pra viver sem conflitos, com motivos ou sem motivos eles se manifestam.
Beijos

angela disse...

Angela
Concordo com voce, os internos são sempre piores.
beijos

Silvio Koerich disse...

Interessante o texto. Mostra como a vida é um morro com altos e baixos e como a gente pode estar bem em um setor da vida e em outro estar insatisfeito e essas sensações se misturam, a gente tentando deixar tudo balanceado.

angela disse...

Silvio
A ideia era essa mesmo e também como a gente tem pouco controle sobre os sentimentos.

Dalva M. Ferreira disse...

Beijo de volta.

A Magia da Noite disse...

Desaparecer para sempre é ter estado e já não estar. Não existir, é pura e simplesmente nunca ter estado.

angela disse...

Magia da noite

No intervalo entre eles a vida acontece.
beijo

AFRICA EM POESIA disse...

Angela

É isso ...
Concha...
Branquinha...
escondidinha...
Mas...
Com a Esperança...
que tu...
a agarres...

um beijinho para ti...minha amiga

Doutrinador disse...

Muito legal e cativante. Gostei do estilo do blog, parabéns pelo trabalho, já estou seguindo. Abraço do Doutrinador.

angela disse...

Doutrinador
Obrigada por me seguir.
Não consegui segui-lo, esta dando erro, tentarei mais tarde.
beijo

angela disse...

Lili
Vou guarda-la no peito.
beijo

JAIRCLOPES disse...

Nossos heróis serão sempre o "alter ego" individual somado às imagens e personagens que nos impingem a mídia, não há saída. Parabéns pelo texto e pelo ótimo blog. Vou acompanhá-lo.

angela disse...

Jair
Obrigada.
Gostei muito do seu blog também
abraço