segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sufoco

(escultura de Antony Gormiley)
A noite estava mais quente do que Ana supunha, o ar condicionado do Shopping deixou o ambiente quente, abafado, para quem tinha saído esperando mais frio. Entrou no carro e saiu rapidinho, abaixou o vidro e deixou o ar entrar. Bom demais! Aquele calor foi saindo e ela reparou que a noite estava bonita o bem-estar foi tomando conta de seu corpo e suspirou meio que aliviando o coração.
O ter se livrado do calor, não sabia bem por que, a fez lembrar daquela mulher estranha que falou com ela na fila do caixa do super mercado. Chovia torrencialmente e a metereologia dizia que iria esfriar. O calor desmentia o inverno e até algumas plantas floriam fora de época, pensando já ser primavera. A mulher falou do tempo e da chuva forte, parecia ansiosa por conversar, mas na verdade, cada vez que Ana tentava fazer um comentário ela dizia que não era aquilo e dava longas explicações que deixavam Ana meio tonta sem conseguir pensar direito. A fila andou, mas a chuva a deixou prisioneira daquela conversa aborrecida, não conseguia se livrar, a mulher ia falando e a deixava meio hipnotizada. O sufoco era o mesmo,(acho que por isso se lembrou dela) mas não tinha janela para abrir e deixar a fresca entrar, pelo menos demorou para encontra-las. Acho que foi quando reparei que ela não olhava nos meus olhos, pensou Ana.
O olhar dela passava reto, não fixava no seu, mas Ana sabia que ela não perdia um movimento por menor que fosse, parecia um felino que controla sua presa de longe, o mal-estar foi tomando conta dela achou que iria histericar. Foi aí que o pensamento se instalou. O que se passava com aquela mulher.? Ela não olhava, mas via. Falava e só escutava para contestar. Suas histórias eram das desgraças que aconteciam com os outros e de como ela os ajudava, parecia ter um gosto meio morbído pelas dores dos outros e o pensamento foi ficando mais claro. Compreendeu a imensidão do isolamento daquela mulher, arrepiou só de imaginar o tamanho da solidão e da inutilidade que deveria estar naquela vida, que só despejava, só ia para fora, nada metabolizava ali. A compaixão foi tomando conta de seu coração, o sufoco desapareceu e Ana ficou ouvindo até ela cansar de falar e ir-se embora como chegou. Sem nada a mais.

20 comentários:

tertulías disse...

Mas que Blog mais interessante... como gostei da forma cativante com a qual voce escreve!!!!! Voltarei!!!!!!!!!!!

manuel marques disse...

Aliviarei a minha dor se não a sufocar pelo silêncio, mas sim se a considerar de frente e a manifestar ....

Beijo querida amiga.

angela disse...

Tertulias
Obrigada, apreciarei a sua visita.
beijo
Angela

angela disse...

Querido Manuel.
Disse-o bem, tem que enfrentar.
Beijos

RosanAzul disse...

Olá Angela, vim conhecer teu blog e gostei!!
Parabéns pela qualidade de tua escrita!
Te convido a visitar o meu!
http://rosanasouzanasasasdoanjoazul.blogspot.com/
Beijos Luz! RosanAzul

angela disse...

Oi RosanAzul
Obrigada e vou visita-la.
beijos

Conceição Duarte disse...

Angela, os sentimentos são complicados e precisam ser administrados, muito difícil viver, mas depois que descobrimos alguns caminhos, tudo fica mais tranquilo, pode doer um pouco, mas conseguimos mexer em tudo e resolver...
um beijo e obrigada por todas as suas visitas muito carinhosas
boa semana, CON

angela disse...

Con
Concordo, são dificeis, viverbem é uma arte que exige coração e mente equilibrados.
boa semana.
Angela

Princesa disse...

Pensamos que a vida nos vai
dar tempo para sempre
E vamos deixando a
felicidade esperar.
Tudo de bom lhe desejo
um beijo

ANA CLAUDIA MARINHO disse...

Quem nunca passou por uma situação dessas?Até eu ficaria com calor.Ufa que sufoco!

beijos.

angela disse...

Princesa
Melhor ir atraz,não?
beijos

angela disse...

Ana Claudia
É um sufoco mesmo.
beijo

Silvio Koerich disse...

Angela teus contos tem um "q" pessoal?

Silvio Koerich disse...

Valeu baby sucesso pra tu tambem. Estou sempre prestigiando e metendo a real por aki

A Magia da Noite disse...

por vezes ouvido expiamos as dores dos outros

missosso disse...

sufoco e tanto a situação, na escrita nem sentimos: o texto nos leva aonde quer, a solidão da vomitadora. parabéns!

angela disse...

Silvio
tem um "q" pessoal sim.
O seu não tem?
Gosto da sua presença aqui.

angela disse...

Magia
Querendo ou não, ouvindo vamos "espiando" os outros.

angela disse...

Missosso
Observou bem, acho que eu queria falar mais da solidão e do vazio de quem não pode reter.

Claudio Kezen disse...

Olá, Angela. Sempre um prazer a sua visita.