sábado, 1 de agosto de 2009

UM CORPO MARCADO (Parte II)



Vera voltou a ajudar a família na lanchonete de propriedade deles.. Antigamente odiava ficar no balcão servindo os outros, gostava dos elogios que os homens lhe faziam, das cantadas, sabia livrar-se delas e de qualquer jeito sempre tinha algum familiar por perto para ajudar quando um afoito e "chumbado" ficasse mais atrevido, mas não gostava de servir os outros, gostava de ser servida.


Não odiava mais servir, estava feliz por voltar; poder andar, mexer-se sem dor e sem medo era muito bom. O namorado estava todo cuidadoso e tudo caminhava bem. Pela primeira vez na vida, desde que se lembrasse, ela estava se alimentando bem, sem exageros para mais ou para menos.


Continuava cuidadosa com sua aparência, vaidade feminina não vai embora assim tão fácil. Aprendeu com a avó que dizia que tinham que estar arrumadas sempre, nunca se sabe o que pode aparecer. Quando estava muito velhinha uma vizinha vinha duas vezes por semana arrumar seu cabelo e unhas, não podia nem pensar em morrer desarrumada e conseguiu ir como desejava de cabelo arrumado e batom na boca.


Uma tarde fria e ensolarada estava na lanchonete quando sua mãe chegou com a expressão muito carregada, seu coração contraiu forte e o ar ficou preso, com os olhos arregalados e fixos na mãe, esperava o soco que viria. A mãe começou a falar: O primo tinha voltado para o hospital, não estava nem um pouco bem. Vera sentiu que era uma bexiga que esvaziava e voltava para o chão, uma flor que murchava, um passáro sem asas, fruta caída da árvore. Não chorou, ficou imóvel escutando o que sua mãe dizia, escutando era bondade, a ultima palavra que entendeu era que seu primo estava mal, a partir dai ouvia mas não entendia uma palavra, seus pensamentos dispararam e varias informações e observações que ela obteve no tempo do hospital passavam velozes pela sua cabeça procurando seus pares para fazerem algum sentido Pegou a bolsa e saiu andando com a mãe, suas pernas estavam duras era difícil andar, as articulações pareciam enferrujadas, cada passo doía para ser dado. Era claro que não desejava fazer aquela caminhada.


O hospital era proxímo, mas o trajeto foi longo, estava naquele lapso em que o tempo se eterniza, finalmente chegaram, Vera conhecia muita gente lá, fazia pouco tempo que tinha tido alta e voltava sempre para as consultas de acompanhamento. As pessoas, enfermeiras e médicos foram se chegando e todos vinham conversar com ela, parecia que era a mãe e pensando bem de certa maneira era. A situação do primo era muito grave, o corpo estava rejeitando o fígado, os médicos aumentaram as doses dos medicamentos que abaixam a imunidade e as infecções oportunistas se instalaram e generalizaram comprometendo vários órgãos. Só um milagre diziam eles, e quando eles dizem isso é que não há mais nada que eles saibam fazer. Vera olhou de longe o primo na cama e ele estava amarrado. Foi perguntar por que, e lhe disseram que ele estava delirando e alucinando devido o estado de intoxicação causada pela infecção , perguntou se não tinha remédio para isso e o médico disse que tinha, mas não adiantava dar por que o fígado não estava funcionando e o corpo não conseguia metabolizar nada. O horror estava instado! Após alguns dias seu primo morreu.


Vera entristeceu, sentia como se não tivesse sido bom ou suficiente o que ela deu para ele, sentiu-se vazia.


Quando tudo voltou ao normal, Vera tentou retomar suas coisas, mas o brilho tinha se ido, fazia as coisas, mas sem muita vontade as vezes escorregava na comida, principalmente no chocolate, menos que antes, conseguia ter algum controle, mas as vezes comia sem pena dela.Um pouco de tempo depois teve alta, estava bem, seu fígado recuperado e podia praticar qualquer tipo de exercício físico o que significava poder namorar sem medo de se machucar e isto a deixou animada. Combinou com o namorado encontrarem-se no domingo e dormirem no motel, aproveitando a promoção, chegariam as 22 e sairiam as 10 da manhã. Seria otimo dormir juntinho, passar estas horas conversando,namorando. Tinha saudades dessa intimidade.


Vera e Paulo namoravam há uns três anos, se davam bem, apesar dos problemas dela e dos dele, que por sinal não eram poucos. Era de uma família de 5 irmãos, sua mãe trabalhava como faxineira para manter a casa, apesar de ser um trabalho puxado pagava bem, assim conseguia manter a casa. O pai tinha se" mandado" há uns 10 anos atrás e ai a vida ficou difícil, agora estava mais fácil com todos grandes e os mais velhos ajudando.


Paulo conseguia trabalho fácil, era falante, simpático, sempre tinha meia dúzia de piadas pra quebrar o gelo, gostava de Vera, principalmente por aquele jeito feminino e doce que o deixava apaixonado, desfilava com ela e adorava a inveja que os amigos sentiam. Ele também era muito vaidoso, estava sempre arrumado, perdia uma hora para deixar o cabelo todo para cima formando um topetinho alto e bem desenhado e haja gel! Trabalhava em um escritório de contabilidade, mas não parava muito em nenhum emprego, com a facilidade que arrumava saia, e esta era a maior dificuldade para se casarem.


No domingo encontraram-se as 18h, foram a missa e depois comer uma pizza no Degas e foram para o motel, estavam alegres. Quando entraram no quarto Vera ficou um pouco inibida, fazia tempo que não ficavam juntos assim, mas ele foi chegando, foi beijando, abraçando e ela foi relaxando, amolecendo, correspondendo e a noite foi muito boa. Na manhã seguinte enquanto ele pedia o café da manhã ela foi tomar um banho, ele juntou-se a ela pouco depois e começou a ensaboa-la e ai viu a cicatriz todinha, abaixo das costelas, ia de um lado a outro e ainda passava um pouco para as costas no lado direito e para completar no meio da barriga subia outro corte acompanhando o esterno, este não era muito extenso,tinha uns 12cm. A cicatriz além de longa era larga. Ficou horrorizado e não se conteve, falou que ela tinha estragado o corpo dela, que não havia tesão que resistisse, etc.


Vera murchou outra vez só que desta vez o coração congelou, devagar uma raiva imensa foi tomando conta dela, desandou a falar do seu sofrimento, dos dias de hospital vendo aquele monte de gente passando tão mal, que as vezes sentia-se transportada para o inferno, falou da fome, do enjoo, de sua impotência frente a morte, ele tentou acalma-la, disse que estava brincando. Não adiantou, ela viu seu olhar de repulsa quando tocou a cicatriz. Quando conseguiu parar de gritar pediu que a levasse embora, fizeram o caminho de volta em um silencio tão intenso que quase se podia toca-lo. Chegando em casa, antes de sair do carro Vera disse para Paulo que seria melhor eles " darem um tempo", que havia acontecido muita coisa na vida dela e ela precisava se descobrir outra vez. Ele concordou e Vera saiu do carro com uma certa tristeza e muita raiva ainda, sabia que era adeus para sempre.


Entrou em casa e viu satisfeita que todos estavam fora, foi para seu quarto sentou-se na cama e chorou, chorou de raiva, de ódio mesmo, pela dor, pela decepção, pelo sofrimento, pela morte do primo, a vida lhe parecia muito feia, Chorou mais de hora, acabou adormecendo e quando acordou seu coração estava mais calmo. Lembrou-se de todo o ocorrido, refez toda história e aí foi invadida por um sentimento diferente, pensava em tudo o que o primo viveu e tudo o que ele deixaria de viver, e chorou não por te-lo perdido, mas pela vida que ele perdeu, não sentia pelo que acontecia com ela, mas sentia pelo que ocorreu com o outro e deslocando seu olhar assim. pode reconhecer o quanto ganhou com essa longa e triste experiência. Seu coração desta vez acalmou de fato e reconciliou-se com a vida.
(quadro de Salvador Dali)

29 comentários:

angela disse...

TRIBUNA-BRASIL.COM disse...
Angela, perdoe-me a franqueza.Mas sou assim. O texto é até agradavel.Mostra s/ talento de escritora. A ilustração é de matar! chega a ser lúgubre.(O indignado).

1 de Agosto de 2009 23:22
Luis Bento disse...
E eu reconciliei-mecom um belo texto!

1 de Agosto de 2009 23:34

angela disse...

Indignado
Mudei a gravura. Tinha duvídas sobre ela.
Angela

angela disse...

Luis Bento
Obrigada pela visita.
abraços

Princesa disse...

Que ter amigos é necessário.
Que lutar é manter-se vivo. Aprendi que o tempo cura.
Que mágoa passa.
Que decepção não mata.
Que os amigos permanecem.
Que dor fortalece.
Aprendi que sonhar não é fantasiar.
Que a beleza não está no que vemos e sim no que sentimos''

Um bom inicio de semana lhe desejo
Beijos

Romeu disse...

Não excluam o amor de suas vidas dizendo que não pode encontrá-lo.

A melhor forma de receber amor é dá-lo.

A forma mais rápida de ficar sem amor é apegar-se demasiado a si próprio.

A melhor forma de manter o amor é dar-lhe asas.

Bom inicio de semana
um abraço

angela disse...

Princesa
Beijo e boa semana

angela disse...

Romeu
Obrigada pela visita e pelas palavras
abraço

A Magia da Noite disse...

O amor é cego, provavelmente porque não precisa de corpos para se sentir realizado, feliz, e eternamente apaixonado.

angela disse...

Antonio
precisa de uma imaginação como a sua.
abraços

Vênus disse...

Angela
Que delícia de conto.Vai continuar?Me avise, pois não quero perder...
E as imagens são muito significativas!!

Obrigada pela visita.Volte sempre!

Bjus

TRIBUNA-BRASIL.COM disse...

Angela, tem um ditado q/ diz:'quem n/ chora, n/ mama". Tenho certeza q/ muito dos s/ seguidores aprovaram a mudança. VC pediu p/abusar e abusou da categoria.A nova imagem deu mais realce a postagem. Sou crítico nato. Mas sei tb elogiar, o q/ é bom.(O INDIGNADO).

MOMENTOBRASILCOM.COM disse...

Êta, Ângela,tás c/td e n/ estás prosa, hein?È a primeira pessoa q vejo receber um elogio do amigo Indignado. P/visto o fã club está aumentando. PARABÉNS! Abrçs,Roy Lacerda.

AFRICA EM POESIA disse...

Depois do meu poema cansaço deixo este do meu livro"Salpicos de cá e de lá"...pag 50 e contra capa é para fazer uma pequena reflexão...

MININO"


Minino...Minino preto...
Minino de rua...
Minino roto...
Minino que brinca...
Na água do charco...
Minino que às vezes...
Tem fome...

Mas...
Minino que ri...
porque...
Tem beijo...
Tem amor...
Tem...
Pai e Mãe...Ali...
E fica a pensar...

Eu...
Minino preto...
Tem pouco...
Mas...
Tem muito...
Eu "sabe" rir...
Olho...
Ali...

O branco...
Que corre...
Que não pára...
Para ter muito...
Mas...
Que não ri...
Não sabe rir...
E tem...tudo...
Eu...

Minino preto
não tenho nada...
Mas tenho tudo...
Fecho os olhos...
E espero "ficà" grande...
Mas quero ...
Continuar a rir..
E ter...
O mundo...
Dentro da mão...


LILI LARANJO

angela disse...

Venus
Obrigada pela visita.
Aviso sim quando continuar.
beijo

angela disse...

Indigmado
Que bom que gostou.
abraços

angela disse...

Roy
Obrigada pela visita e pelo aviso sobre nosso amigo.
beijos

angela disse...

Lili
Feliz de quem tem alegria no peito.
Beijos

missosso disse...

Ai, ai Vera, já estou viciado nessa saga em que vc (Ângela) se(te) meteu. O que mais haverá para ela descobrir?

Princesa disse...

Ser feliz é encontrar
força no perdão,
esperança nas batalhas,
segurança no palco do medo,
amor nos desencontros.
É agradecer a DEUS
a cada minuto pelo
milagre da vida.

Beijos

Quase Blog da Li disse...

Li de um golpe só; seco, cortante.
Depois fiquei completamente muda.
É assim que aprecio um texto; sem ar, num só fôlego!
Agora estou novamente aqui a escrever...
Só agora;
precisei digerir.
Parabéns pelo maravilhoso texto.
bjs
li

ANA CLAUDIA MARINHO disse...

Olá Angela!
Obrigada pela dica lá no meu blog.

um abraço.

angela disse...

Missosso
Nem eu sei,pretendia ter escrito somente o primeiro texto, escrevi o segundo, e agora...?

angela disse...

Princesa
Beijo

angela disse...

Li
Obrigada pela visita e obrigada pelas pálavras.
beijos

angela disse...

Ana Claudia
Aproveite.
beijos

Conceição Duarte disse...

Angela, você escreve muito bem! Gostoso de ler.
Obrigada por sua visita também, um beijo, CON

angela disse...

CON
Eu que agradeço.
Gosto muito de suas postagens
abraços

Silvio Koerich disse...

Bom de ler, curiosidade grande ficou no conto estou surpreendido Angela parabéns que bom que continuou rs eu sabia que daí dava pra sair coisas boas a mais.

abraços másculos

angela disse...

Silvio
Atendi seu pedido e que bom que gostou. Eu não tinha pensado em continuar, mas você viu o que eu não vi e acabou saindo a continuação.
Abraços femininos