sexta-feira, 29 de maio de 2009

sumir para não me perder

Ele entrou com um calção cinza claro, uma camiseta branca meio larga já um tanto usada, tenis branco, uma roupa que em nada chamava atenção, meio sem graça melhor dizendo, mas o andar...ah o andar era largo, firme e sem tensão, solto. Poderia estar com qualquer roupa, poderia até estar sem, que andaria daquele jeito. Era o andar de quem sabe que tudo esta no lugar certo, ele sabia que aquele corpo era uma Ferrari.

Passou pela fileira de esteiras da academia e dirigiu-se para a barra auxiliar de alongamento, fez alguns e finalmente pendurou-se na ultima trava encolheu as pernas, para não encostar os pés no chão e se balançou um pouco, fez isso virado para as esteiras (sempre vejo as pessoas se alongando viradas de costas para os outros), ele percebeu que eu olhava, melhor dizendo admirava, era um homem de tirar o fôlego e gostava disso.

Saiu da barra e começou a fazer o trajeto de volta, cravei os olhos na TV, já tinha sido flagrada olhando e queria salvar minha dignidade não babando demais. Ele passou e parecia que desceria as escadas, demorou um pouco, mas subiu na esteira ao meu lado, sorri por dentro,( de alguma maneira eu sabia que não babar demais era a única chance dele ficar proxímo)

A esteira que ele começou a usar estava com problemas, com velocidade baixa rateava como carro com velas sujas.

Ele falou - a esteira está estranha.

Respondi - melhora com velocidade maior.

Ele sorriu e eu peguei o livro que tinha levado e comecei a ler, aquele sorriso e aquela voz de barítono; era demais para mim.

Fico em estado de graça quando um homem tem esta voz e o melhor que tenho a fazer é sumir, me recolher para não me perder.

terça-feira, 26 de maio de 2009

filhos

Encolho
Estou numa cabeça de alfinete.
Dóí mais a carne que veio da gente,
que a própria carne da gente.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Também quero!

"Nada de poder;
um pouquinho de saber;
e o maxímo de sabor."

R. Barthes.

Barthes sugere que troquemos de casca como as cobras e deixemos todo conhecimento inútil de lado, para adquirirmos uma nova pele.
Retornar depois de adulto ao coração infantil.



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domingo, 24 de maio de 2009

nem tudo da pra saber

Acordava cedo, rezava o terço ainda na cama, vestia-se e preparava o café. antes de começar a comer abria a porta da sala , as portas ficavam abertas, escancaradas, o dia todo, era o sinal de que seus moradores estavam prontos para receber quem quisesse chegar, era só ir entrando e chamando pelo nome. Era assim na cidade toda.




Seus cabelos já haviam branqueado há muito tempo, ela os usava sempre arrumados , passava agua de anil após a lavagem, para que não ficassem amarelados. As unhas eram feitas toda semana e pintadas de um rosa claro, o batom não podia faltar, nem o perfume. A roupa era simples, vestidos confortáveis, sapatos baixos, pois era muito ativa no trato da casa e adorava cozinhar.



Antes do jantar, tomava seu banho e vestia uma roupa mais caprichada e sapatos com um pouco de salto, não muito, pois não queria correr o risco de se desequilibrar. Não confiava muito nas pernas e dizia: "sabe como é, velho cai, quebra uma perna, fica de cama, pega pneumonia e morre". Esperava o marido voltar do trabalho e depois do jantar caminhavam pelas ruas de braços dados e passos lentos, conversavam com quem encontrassem pelo caminho, afinal conheciam todo mundo.



Nas horas vagas fazia croché ou lia. Gostava dos romances açucarados e de Jornal. Lia o jornal todo dia, teve mais estudo que a maioria das mulheres de sua epóca. Tentava ser a melhor em tudo que fazia, gostava da admiração. Era dramática, e como era.! Quando muito contrariada e sem saída, "desmaiava" e ai o caos estava instalado, era um corre-corre, esfrega álcool, abana, etc. Durante anos as coisas foram assim, e durante anos a família toda ficava assustada, mas...algo incomodava, despertava uma certa hostilidade e os comentários sobre o genio forte e a dramaticidade,



Com certeza ninguém sofria como ela. Era só reclamar de uma dor ou um mal-estar e já ouvia: "Ah se você tivesse tido a dor que tenho nas costas..."e desfiava suas mazelas, suas cirurgias, seu bico de papagaio, a água no joelho, etc, falava dessas dores, mas não falava de outras dores, dos tempos dificeis, das humilhações que passou, dos desencantos que teve, dos filhos que perdeu.




Nunca consegui saber se todo aquele desfilar de sofrimento fisico era uma tentativa de consolo ou a necessidade de ser mais, mesmo que este mais fosse sofrimento.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

As minhas dores


As minhas dores são difíceis, vivo tentando escapar, quando uma bate a porta, por acontecimento qualquer, eu já tento sair rapidinho, fingindo não ouvir, não ver.Procuro dentro da mente algo gostoso, alguma lembrança boa e tento diluir a bebida amarga da dor. Quem sabe ela se dissolve vira pó ou fumaça? Nessa alquimia sempre perco, ela retorna insistente, renascida como fénix e fica me acompanhando até que eu a aceite e a deixe doer.Quando quer ela se esconde em lugares obscuros onde nem eu conheço, e parece que se organiza em uma lógica própria com outras dores minhas, ficam em grupos, vários grupos, todas amigas . de mãos dadas . Sei que esta lá pois quando menos espero, quando algo acontece; lá vem elas todas juntas, e querem todas desfilarem pra mim, como um rosário de contas. Uma após a outra .

Como são insistentes as dores!


Como são volúveis as alegrias!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

por do sol


O sol amornando.
O ar resfriando.
Minha pele sente,
o contraste suave
de uma tarde de outono.
E meu coração relaxa
E a suavidade penetra,
pelos poros da minha pele,
até me preencher toda.
Quero explodir em cores no horizonte.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cada uma que a gente tem que passar

Fui ao dentista, e sofri, sempre sofro, desde menina. Atualmente já controlo meu medo ( não sei se o termo é exatamente este, controlar), carrego-o guardado dentro de mim. Fecho os olhos e abro a boca. Fecho os olhos pro dentista não ver meu medo, tenho pudores e detesto piedade, me enfraquece, fico com vontade de chorar, de espernear, cerrar os dentes e bater o ´: Não abro, não abro e pronto. Bobear mordo o dedo dele como fiz uma vez, com um que queria abrir minha boca na marra ( eu era criança ,claro!) mas a vontade persiste e eu resisto. Abro a boca o mais que posso inclino a cabeça "amorosamente" para o lado dele, fecho os olhos e.....o pensamento dispara, tento pensar em coisas alegres, gostosas, sexo até e vou tentando sair de lá, deixar o corpo e me mandar pra algum lugar bom. Uso todos os recursos que tenho "pense que é uma árvore, é nela que estão mexendo". Droga esta doendo, dou um gemido pra ele perceber e ai a coisa piora.


- Sinto, mas o canal esta inflamado, não tem jeito, você vai ter que aguentar até eu abra mais e possa anestesiar direto no nervo.


Cacete! quanto palavrão surgiu na minha cabeça. Inflamado?!! Aguentar?!! Entretanto doi e como doí. A cabeça quer retirar-se rapidamente, não tenho nenhum pensamento que me console e pulo a cada dor aguda.


-Angela, não tire a cabeça, você precisa aguentar, não tem outra maneira.


Começo a pensar numa conversa que tive outro dia em que a pessoa falava que da dor a gente não escapa, já do sofrimento... Ainda não entendi direito a diferença, também não pensei muito sobre isso, mas me lembrei da frase, lá na cadeira do dentista e comecei a me dizer;-"È só uma dor, uma hora ela acaba, esta é uma dor que sei que acaba, acaba junto com o nervo e ai não doi mais. Angela é só uma dor e o que doi é seu dente, não é você, é um pedaço seu". Não é que a dor foi diminuindo, diminuindo e acabou. Passou,( se todas as dores fossem assim!) ai fiquei entregue àquelas agulhas e aquele vai e vem no meu canal, quando levanto da cadeira comento que esta um pouco dolorido e que tem um canal que doi mais. O dentista me pergunta meio surpreso:


-Você consegue identificar qual é?


Respondo educadamente que sim , que tem um que tem uma dobrinha que a agulha enrosca, é este que doi mais, e penso "Você acha que não sei onde me enfiam as coisas?


Realmente este não é um lugar que eu goste de estar.

O amor tem estranhos caminhos

Maria conheceu Júlio numa festa da escola, achou-o tão bonito, tão inteligente e tão seguro de si que quando se deu conta estava apaixonada e intimidada. Afinal ele era tão bem sucedido em tudo que fazia.

Júlio adorou aquela devoção, a moça era bonita e agradável que quando se deu conta estava apaixonado pela devoção dela. Namoraram alguns anos e assim que deu, casaram. Ele fez uma carreira brilhante na industria química e ela logo teve uma filha. Nenhum deles sabe ao certo como de simples preocupação pela filha, que toda mãe costuma sentir, perdeu o pé e a paranóia tomou conta. Tão angustiada temendo que envenenassem sua filha, que a raptassem, que a machucassem que não suportava deixa-la só.

Júlio foi perdendo a paciência, chegava cansado em casa e tinha que ficar ouvindo aquelas historias estranhas. Não demorou muito e Maria estava no psiquiatra. A angustia melhorou com os remédios, mas as preocupações...estavam todas lá. Júlio começou a dar uns tapas em Maria e já não a tratava com respeito, sentia -se forte frente a fraqueza dela e ai a devoção dela não fazia falta, ele era o forte.

Um dia sofreu um acidente e ficou estranho, a memoria faltava as vezes, a atenção mais ainda, acabou sendo aposentado por invalidez.

Maria seguia com seus afazeres domésticos e era quem cuidava de todos. A forte agora era ela e depois de algum tempo estava sentando a mão em Júlio, sem respeito algum por ele, a devoção tinha acabado o medo também e assim seguiram por alguns anos, ele cada vez mais encolhido e assustado.

Acontece que um dia sem mais nem menos, como muitas vezes na vida, o imprevisto ocorreu. Júlio desmaiou, caiu no chão e demorou para acordar. Maria assustou-se, achou que ele estava morrendo, ficou aflita, não sabia o que fazer e neste período de angustia reviu (complicado isto de rever o que nunca foi visto) sua vida sem Júlio. Viu sua vida passar por seus olhos, acontecendo sem ele e lhe pareceu uma vida triste.

Quando Júlio acordou encontrou Maria chorando e viu nos olhos dela o medo, a angustia e a antiga devoção e sorriu feliz.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Dia das Mães


Não é fácil falar de mãe sem cair na pieguice ou na piada, vou tentar.
Uma das boas lembranças que tenho do meu tempo de criança é de quando faltava luz na pequena cidade que morava, a gente ia pra rua e sentávamos no meio fio da calçada, minha mãe, minha irmã e meu irmão e eu . E com a cidade toda as escuras o céu ficava muito lindo, as estrelas mais visíveis e ela ia apontando as estrelas e mostrando as constelações.


Nunca consegui muito ver aquelas formas, com exceção, é claro, das três Marias e do cruzeiro do sul, de qualquer forma a gente ficava tudo juntinho ouvindo e olhando pro céu, tinha algumas discussões pois mãe tem só dois lados e nós éramos três, ai haja negociação, os que estavam sentados ladeando a mãe não queriam sair e o que estava fora queria encostar nela também.


Muitos anos mais tarde eu estava em Cananéia, com minha filha de dois anos e andava com ela no jardim da casa e olhei para o céu e as estrelas estavam muito nítidas e ai meu olhar se dirigiu para a minha filha e depois para o alto de novo e vi a nós duas tão pequenas e o céu tão grande, tão amplo, parecia que eu via a nos duas com o binóculo ao contrario e o céu com o lado certo do binóculo, as imagens se alternavam muito rápidas e senti em todas as células do meu corpo a nossa pequenez e me afligi pela minha menina.

Atualmente minha filha já cresceu, virou moça, que muitas vezes torce o nariz para algumas coisas que falo e repete outras tantas, já outras falas minhas elaborou melhor, chegou com o pensamento mais longe, tem muitas outras que são suas e segue em sua afirmação pessoal.

Minha mãe envelheceu, perdeu muitas pessoas, já não enxerga nem escuta bem e esquece muitas coisas, então acontece de ver varias vezes o mesmo jogo e torcer como se ele estivesse acontecendo naquele momento, o mesmo acontece com os filmes recentes. Então o mundo esta cheio de coisas novas para ela; do que escapa por suas deficiências, vai criando historias e assim tendo emoções e mantendo seu bom humor, porém tem seus momentos de quietude, de olhar ausente, e nesta hora sei , que olha outros momentos de sua vida e não há o que fazer e ai sinto a minha pequenez novamente e me aflijo por nós.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Outono


O dia amanheceu com aquele sol gostoso de outono, o dia é claro com aquela luminosidade que só ocorre nesta estação, ele joga sua luz dourada por todas as coisas e todos os seres, ele deixa nossa pele morna e aquela sensação de suave melancolia de um momento tranquilo da vida. Foi seguindo tranquilo até que no meio da tarde escureceu e um vento forte, muito forte, chegou, as vidraças tremeram, a luz piscou varias vezes sem decidir se apagava ou não e a chuva veio fraca. Não é uma tempestade de verão, é uma de outono, uma travada no céu entre o calor e o frio.
E o frio venceu; a temperatura desceu rápida e a ventania se desfez. O vórtice, é assim que se chama esse fenómeno natural, como explicou um conhecido meu, meteorologista, é um vento formado nas alturas de espirais amplas e velozes, que atinge grandes áreas, mas menos violento que os tornados. que se formam próximos ao solo e possuem espirais pequenas e intensas. Não sei em que época do ano os tornados se formam eles não costumam aparecer por aqui, já os vórtices são do outono e as vezes em vez de chuva trazem granizo.

Pensei um pouco nas paixões que nos tomam no verão de nossas vidas, são tão intensas, barulhentas e frequentes, já as que nos acometem no outono aparecem num dia claro, calmo surgem de sopetão causando sobressaltos são escassas e assustadoras e quando se vão deixam o frio.