sábado, 27 de junho de 2009

O ABRAÇO


Naqueles tempos era uma pequena cidade, tão pequena que estando no cruzamento da rua central você veria o fim dela, em todos os sentidos que olhasse.
Como toda cidade tinha uma igreja no centro, melhor dizendo a igreja era o centro da cidade, com seu belo jardim bem cuidado, com um coreto e bancos para sentar.
Ali acontecia a vida da cidade, os casamentos, os funerais, os batizados, as missas de domingo e o footing (rapazes parados nas calçadas e as moças andando em grupos de braço dado no centro, um verdadeiro corredor polones do paquera. Flertava-se com muitos ao mesmo tempo e ia se escolhendo primeiro com os olhos, sorriam, as vezes conversavam. Tudo era muito lento, levava-se muitos domingos nessa escolha, pois não se devia errar. A noite de domingo os jovens reservavam para o "clube", onde podia-se dançar e ai as possibilidades do conhecimento aumentavam, sentia-se o cheiro, o hálito, o tato, as vezes a emoção de uma mão tremula e suada , um verdadeiro banquete para os sentidos, e tudo isso com pelo menos um palmo de distancia entre os corpos.
Foi assim que Bete começou a namorar com Murilo, uma semana para andar de mãos dadas, um mês para o primeiro beijo, um beijo bem casto e depois de um tempo dançar de rosto colado, tudo já estava determinado, era só se aguentar e seguir. As moças dificilmente se atreviam a mudar qualquer coisa que não fosse dificultar ainda mais o contato físico e muita imaginação para manter o interesse e a atenção do namorado. O namoro seguia bem, Murilo ia a sua casa nas quarta-feiras, aos sábados pegam um cineminha e aos domingos viam-se na missa e a tardinha dançavam no clube.
Bete estava apaixonada e já tecia sonhos sobre o futuro, foi quando Murilo precisou viajar com a mãe, sua avó estava doente e morava em outra cidade. Ele ficou lá com a mãe por algumas semanas, o pai ficou cuidando da fazenda, A avó acabou falecendo e Bete ficou preocupada, sabia o quanto Murilo gostava dela. Quando ele voltou estava meio estranho, esquivo, a conversa entremeada de silêncios. Ele não havia lhe beijado nenhuma vez, ela supôs que fosse de tristeza e resolveu recolher-se um pouco e ai ele ficou mais distante ainda. Uma noite quando estavam se despedindo no portão e Murilo lhe deu o habitual beijo no rosto, Bete abraçou-o tentou aproximar seus corpos e ele esquivou-se, saiu do abraço meio sem graça e ela, bem ...ela deixou os braços penderem, as mãos ficaram pensas e os ombros permaneceram voltados um pouco para frente. Acabou ali.
Hoje em dia quando Bete anda os ombros continuam formando um meio circulo com as costas arredondadas, o peito um pouco encavado uma postura de tristeza, de quem não esta de peito aberto para a vida. Bete carrega no corpo a lembrança da dor pelo abraço que não aconteceu.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

sem aviso


...e não é que as vezes a gente se vai assim,

sem mais nem menos, meio antes do tempo

simplesmente sem perceber que se foi?


quarta-feira, 24 de junho de 2009

Isso não pode continuar

"Constatar o insuportável: esse grito serve para alguma coisa! ao me significar que é preciso sair disso, de qualquer maneira, instalo em mim o teatro marcial da Decisão, da Ação, da Saída. A exaltação é como o lucro secundário da minha impaciência: me alimento dela, nela me afundo. Sempre "artista" faço da forma um conteúdo. Ao imaginar uma solução dolorosa (renunciar, partir, etc), faço vibrar em mim a exaltada fantasia da saída: uma glória de abnegação me invade (renunciar ao amor, não à amizade,etc) e esqueço logo aquilo que seria preciso sacrificar: simplesmente minha loucura - que, por estatuto, não pode se constituir em objeto de sacrifício: já viu louco "sacrificando" sua loucura por alguém? Por enquanto só vejo na abnegação uma forma nobre, teatral, o que equivale a rete-la no abrigo do Imaginário."

R. Barthes

Não tenho o que acrescentar ao que Barthes diz tão claramente, e estou com este texto me rondando a cabeça, então resolvi posta-lo, porque seja em questões amorosas ou de trabalho, de amizade, de doença, seja qual for, a mente é invadida por tantas questões, tentando controlar os perigos, evitar a dor que enlouquece e fica remexendo nos acontecimentos, resignificando, tentando encontrar outra saída que não seja a dor.

sábado, 20 de junho de 2009

Duas cenas viárias.



1) Dirigia meu carro tranquilamente, quando sem mais nem menos, surgiu rolando pela rua algo, que não identifiquei de imediato o que seria. Lembrei da máxima que diz que atrás de toda bola tem uma criança. Diminui a velocidade e fui desviando . Bem...atrás do objeto tinha um homem que atravessava a rua pulando como um Saci - Pererê, e a bola era um pé de sapato que rolava. O homem ria meio sem graça, e eu fiquei imaginando como ele conseguiu mandar aquele pé de sapato tão longe.



2) No cruzamento da Av. Rebouças com a Rua Joaquim Antunes um guarda orientava o trânsito. Não havia acidente, nem farol apagado, só o trânsito intenso do começo da manhã. Ele andava de um lado para outro cuidando para que ninguem ultrapassasse a faixa de pedestres, nem fechasse o cruzamento. O andar dele era impositivo, mas tranquilo, as vezes parecia que dançava um bolerão. Pensei com meus botões que este guarda deve ter brincado assim quando criança. Era evidente que sentia prazer no que estava fazendo e o melhor de tudo é que NÂO tinha na mão o temido bloco de multas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Não sei o título



Este poema o Manuel escreveu num comentário deste Blog. Gostei! Resolvi coloca-lo aqui onde todos podem ler.


Eu sou de todas as cores, de todos os sons,

de todas as dores, de todos os tons...

Sou água, terra, fogo e ar...

Sou a inércia e o caminhar...

Sou brisa, sou tempestade...

Sou mentira, sou verdade...

Sou lua minguante, sou lua cheia...

Sou pegadas na areia...

Sou a rosa e o espinho...

Sou afeto e sou carinho...

Sou sol, sou maresia...

Sou barulho, sou melodia...

Sou razão, sou sentimento...

Sou a eternidade e o momento...

Sou matéria, sou espírito...

Sou a doença e o antídoto...

Sou séria, sou anarquista...

Sou menina, sou mulher...

Sou o que me der na telha...

Sou o que vc quiser...

Só não imutável, nem uma tediosa mesmice...

Eu não sou MAIS eu... Eu sou apenas EU...

E mesmo assim, imperfeita, já me dou por satisfeita...



Nilza Rodrigues





"ANGOLANO"








ACACIAS RUBRAS







Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!

de Neves e Sousa (Pintor e Poeta Angolano)

Poema Dos Olhos Da Amada

Oh, minha amada
Que olhos os teus

São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus

Oh, minha amada
Que olhos os teus

Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus

Ah, minha amada
De olhos ateus

Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus


Vinicius de Moraes

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Diversidade é fundamental



Sónia era uma moça inteligente, ótima aluna, não chegava a ser bonita, tinha sua graça, traços harmoniosos, cabelos e olhos escuros e a pele muito clara, tomava muito pouco sol. A família de imigrantes portugueses, estavam bem financeiramente, a casa em que moravam era grande e bonita e ela e a mãe cuidavam de tudo. Eram austeros no jeito de ser, vestia-se como uma senhora,não como a jovem que era.

Não tinha amigos íntimos, nem nunca namorou,não que fosse chata, só era tímida e retraída, com um ar meio melancólico e faltava espontaneidade, o que imagino afastava seus colegas. Jovens costumam gostar de rir, sair, namorar,beber, etc e ela...bem ela ia a missa todo domingo, participava das atividades da igreja, ajudava a mãe e estudava.

O pai acostumado a uma vida dura e difícil era exigente com todos e ela nem sonhava em confronta-lo até que terminou a graduação e começou a pós iniciando sua vida profissional. Apaixonou-se algumas vezes, amores platónicos e impossíveis, tinha uma irresistível atração por padres e seminaristas, nunca por um colega de classe, vizinho ou professor.

Quando se aproximou dos trinta anos aceitava qualquer convite para sair, sem seleção alguma e sua experiência era restrita ao povo da igreja e a sua família, todos com muitas preocupações éticas e morais.

Surpreendeu-se um dia quando saiu com um rapaz que a levou para um bar em que as mesas ficavam em nichos isolados e lá entre um beijo e outro e muitas palavras doces e elogios que nunca tinham sido ditos a ela, ficou subjulgada, permitindo que ele a acarinhasse cada vez mais ousadamente e quando chegou em casa, ainda embevecida pelos elogios dele, sentiu-se um pouco dolorida e foi se atinando com o ocorrido: a virgindade se foi e o rapaz também.

Um tempo depois uma onda do mar pegou Sónia, que não atinou muito bem com o que estava acontecendo e o mar a levou.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Santo Antonio


Amanhã é dia de Santo Antonio e hoje é o dia dos namorados e dia de pingar a cera da vela na água pra ver que inicial surge, roubar o menino Jesus do Santo, vira-lo de cabeça pra baixo e mais uma infinidade de simpatias para arrumar marido ou saber com quem vai casar.

È o Santo casamenteiro e o protetor dos pobres e por isso muita moça da dinheiro para os pobres de Santo Antonio em troca de marido, outros trocam por um bom negocio, dizem que ele ajuda bem, que é muito interesseiro e zeloso com seus pobres, mas...não se preocupa muito com o "tipo de marido" que arranja, arruma qualquer um.
Dizia minha velha tia que devíamos pedir para São José que era o padroeiro da familia, e que este sim arruma bons maridos. Pelo sim, pelo não...sempre se pode pedir aos dois.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ressentimento

Nunca me imaginei escrevendo uma carta ressentida. A vida tem me ensinado. Não da pra falar:"nunca pensei que isso aconteceria comigo", "não faria isso nunca" ; pois olha agora, eu aqui escrevendo como uma mulherzinha chorosa com vontade de desfiar um rosário de queixas.

Fiz grandes esforços na vida para guardar minhas frustrações, sei que elas são minhas e só minhas. Só me frustro porque desejo e o desejo é meu, os dois são os tijolos que me constituem, são a terra e a água prensados e cozidos na forma dessa vida que levo.

E nessa empreitada de ir me constituindo, você colaborou bastante.

Ainda me resta alguma dignidade, então não vou me lamentar muito mais, só quero as fotos de volta, aquelas que você me pediu para copiar e não devolveu, assim como não devolveu a maquina que as tirou e que você pediu emprestada mais de 20 anos. Não estou dizendo que você só me roubou, me deu muitas coisas, mas foi tirando todas.

O mais difícil é me deparar com essa raiva e a certeza de que agora você roubou de vez meu afeto e minha confiança. Descobri, finalmente, que a confiança que eu tinha em você, era pura projecção da minha lealdade e do meu afeto.
Como bem diz a palavra, Ressentir, é sentir de novo, ficar sentindo, então eu resolvi escrever e ver se me livro disso.
O melhor é que entendi que fiz muitos acordos na vida, em que só eu participei, pensava que o "contrato social" estava em vigor. Então sou legal com você. Você é legal comigo. Sou sua amiga... sou generosa com você...a lista é infinita, e muitas vezes fiquei com cara de tonta. Agora farei minha parte, como acho que deve ser e não espero o retorno. Pondo para circular e que a vida cuide de mim.

sábado, 6 de junho de 2009

O amor e seu tempo

AMOR E SEU TEMPO
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio minúsculo,
vibrando no crepúsculo .
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida.
Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Esta poesia foi postada para os (as) maduros (as), inclusive eu, pois a vida esta ai, inteirinha para ser vivida.

O chão é a cama

O chão é a cama para o amor urgente.

O amor não espera ir para a cama.

Sobre o tapete no duro piso,

a gente compõe de corpo a corpo a última trama.

E para repousar do amor, vamos para a cama!

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nem tanto por acaso

Era o primeiro dia de aula na universidade, as três se encontraram na lanchonete completamente perdidas, não tinham ideia de onde se desenrolavam as aulas, não se conheciam, mas reconheceram rapidamente a igualdade de condições em que se encontravam.

Na semana anterior havia acontecido varias atividades de entrosamento, a famosa semana do calouro, e elas tinham por razões diversas optado por não participar e agora estavam completamente perdidas. Depois de muito perguntar descobriram que os colegas estavam assistindo aula em outro predio.

Neste primeiro dia ficaram juntas, pois a turma tinha resolvido dar um "gelo" em quem não viesse para a semana do calouro, mas não conseguiram fazer isso, no segundo dia já estavam todos conversando com todos. Dai pra frente as pessoas foram se agrupando segundo críterios que não eram claros pra ninguém, mas dava para ir identificando as diferentes tribos, os políticos, os alternativos, os enquadrados, os aplicados, etc. Cada uma achou sua turma, mas mantiveram a proximidade por mais de 30 anos.