domingo, 30 de agosto de 2009

belo dia






Num dia tão lindo,
um aperto no peito.
O gesto contido
de amor reprimido,
nem um abraço
depois do rechaço,
consolaria
a batida solitária
do meu amor.



(imagem retirada do google)

sábado, 29 de agosto de 2009

Mais selos/premio






Recebi do blog : http://www.tribuna-brasil.blogspot.com/ os seguintes selos/prêmios :

e os indico ,entre tantos que os merecem, os seguintes blogs:
4-O perdedor mais foda do mundo http://silviokoerich.blogspot.com/
7- Ecos da alma http://normavillares.blogspot.com/

selo/prêmio







Recebi de Eliane Jany Barbanti dos blogs : http://aptidaofisicaesaude.blogspot.com/ e http://jesuscristoemminhavidablogspot.com/ os três selos a quem agradeço e os repasso para os seguintes blogs.
1-equipe do CPI Brasil.com http://www.cpi-brasil.blogspot.com

terça-feira, 25 de agosto de 2009

UM CORPO (parteV)

O beijo foi bom, bom demais, doce, longo. muito longo. O tempo entrou em outra cadencia, não havia mais hora que pudesse marca-lo. Em algum momento pararam, afastaram-se e seus olhos brilhavam e sorriam um para o outro, sem palavras que coubessem no momento. Foram recuperando o fôlego e na medida que as batidas do coração se acalmavam o tempo foi encontrando suas horas e perceberam que algo muito especial estava acontecendo.
O medo de se separarem ficou opressivo. O que aconteceria depois? Com que sentimentos acordariam?
Ficaram se olhando de mãos dadas e nenhum fazia menção de ir embora. Dois rapazes atravessaram a rua perto do carro e Marcos prestou atenção neles, não queria ser surpreendido por um assalto e percebeu que estavam se arriscando dentro de um carro parado aquela hora da noite. Falou com Vera sobre seu receio e ela achou que o melhor era cada um ir para sua casa e no dia seguinte se veriam, O beijo de despedida foi rápido para evitar o arrebatamento anterior.
Vera entrou em casa e foi para seu quarto, recostou-se na cama e ficou mergulhada num turbilhão de sentimentos e pensamentos, demorou muito para dormir, nem percebeu quando pegou no sono, dormiu com a roupa que estava, recostada na cama. Acordou no horário de sempre, meio dolorida e agitada. A angustia tinha dado as mãos para sua felicidade.
Foi para a faculdade, chegou um pouco atrasada, pediu licença para o professor e entrou. O coração batia forte, viu Marcos sentado no lugar de sempre, sorrindo, parecia aliviado. Sorriu para ele e enquanto entrava na sala de aula o mundo sumia,, não via nada nem ninguém, só os olhos e o sorriso de Marcos.
Sentou-se em sua carteira antes que as pernas lhe faltassem e suspirou aliviada.tentou prestar atenção no que o professor dizia, não deu. Ficava pensando no ex namorado e na cicatriz, precisava conversar logo com Marcos, não queria passar outra situação como aquela e se tivesse que recuar, quanto antes melhor.
Intervalos, final das aulas, carona de Marcos para casa, os amigos perceberam que algo acontecia ali, brincaram com os dois e Vera, bem Vera não conseguiu conversar naquele dia, queria viver um pouco aquilo tudo apesar do receio que não deixava de espreitar e incomodar o tempo todo, como uma etiqueta de roupa que fica penicando a pele.
Os dias foram passando e Vera não falava nada, Marcos percebia que alguma coisa estava enroscada, só não sabia o que, as vezes duvidava dos sentimentos de Vera, ficava inseguro e tinha vontade de não gostar tanto dela, mas não tinha jeito, gostava e pronto. Vera também estava cada dia mais apaixonada e angustiada. Chegou um momento que não conseguia mais aplacar a duvida e resolveu conversar.
Num domingo a noite após irem ao cinema Vera convidou Marcos para tomar um café em sua casa, enquanto saboreavam o café Vera começou a contar sobre o primo, sua doença, a cirurgia, a morte do primo, e o fim de seu namoro, contou da cicatriz e a mostrou.
Marcos ouviu tudo e foi ficando profundamente emocionado, foi sendo inundado por uma ternura e uma compaixão como nunca lhe havia acontecido. Quando viu a cicatriz tão grande marcando o corpo de Vera não se conteve, puxou-a e beijou toda cicatriz, depois abraçou-a, era tudo que dava para fazer com aquela emoção tão intensa que tomou conta dos dois. Vera suspirou aliviada.
(pintura de Maria Helena Abramo)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

selo/premio


Agradeço ao Roy Lacerda do blog http://momentobrasil.blogspot.com/ o selo/premio Blog de Ouro, vou guarda-lo com carinho e indico alguns dos muitos blogs que o merecem:

1-manual do inseguro
2-magia da noite
3- mirada anterior
4-constancia vila poema
5- fotografias que rimam
6-banzeiro- poesia em movimento
7-RosanAzul
8-crônicas minhas
9- o olhar de carpe diem para o século XXI
10- amor na guerra

Regras:
1-Exibir a imagem do selo; 2-Postar o link de quem indicou; 3-Indicar alguns blogs de s/preferência; 4-Publicar as regras.

sábado, 22 de agosto de 2009

Na falta de bruma

se as palavras me sombreassem
na sua penumbra
poderia dizer:
apaixonei.
não se preocupe
cabe dentro de mim

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Brumas do silencio


O verbo pálido
o ouvir temeroso.
Antecipa desiludido
o dito doloroso
que não foi dito.
Criou o equivoco
nasceu o mito
um imenso sufoco
de bruma branca
me cala.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Um Corpo Vivo (parte IV)


Vera continuou seu curso estava chegando ao fim, tinha aprendido muitas coisas, feito estágios e sentia-se feliz com a escolha feita. Os amigos continuavam quase os mesmos e apesar do tempo que estavam juntos Vera não conseguia falar sobre sua dor. Claro que muita conversa já tinha rolado. Os amigos gostavam muito dela, sempre pronta á escuta-los em suas dores e problemas, mas nunca falava de si, nunca a viram namorando nem interessada por ninguém, pelo menos nunca tinham visto ou ouvido nada a respeito. Até chegou uma epóca em que alguns achavam que ela devia gostar de mulher e que tinha vergonha de falar, porém nunca se viu nada e o boato acabou morrendo e a falta de namorado passou a fazer parte dela, ninguém pensava mais sobre isso, bem quase ninguém.
Marcos era um dos amigos mais chegados de Vera e era apaixonado por ela, e por mais que tentasse não conseguia falar sobre isso, ou ela desconversava, ou ele percebia no meio da conversa que não era o momento e o pior é eles conversavam muito até brincavam que tinham uma "libido tagarela". Nisso havia o reconhecimento de uma certa "tensão" entre eles, a conversa "rolava solta" e falavam horas sobre tudo quanto era assunto menos sobre o que sentiam
Marcos tentou namorar outras moças, não deu certo, não conseguia deixar de pensar em Vera, e estas relações acabaram sem deixar marcas, pelo menos nele.. Pensou que esse amor estava virando uma obsessão e resolveu que teria que fazer alguma coisa.
Um dia foram ao cinema e depois ficaram conversando e Marcos pensava o tempo todo na conversa que queria ter, mas não conseguia falar nada do que desejava. Frustrado resolveu leva-la para casa, quando chegaram Vera despediu-se dando um beijo em seu rosto e Marcos virou-se de forma que seus lábios se tocaram e aí... bem aí... as lamparinas do juízo apagaram -se todas e Vera desencantou

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Rosa em Botão






Amor pequenino
intenso, fervente.
Nasceu assim...
mais sonho
que sentimento,
mais desejo
que ternura,
mais medo
que ventura,
que pena!
feneceu botão

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Uma Cicatriz na Alma (parte III)



Terminado o namoro, Vera tentou seguir com sua vida, mas não dava para levar a vida do mesmo jeito, uma inquietação surgira dentro dela e não havia o que a aplacasse, melhor dizendo, os truques que ela utilizara antes não satisfaziam mais. Não conseguia mais ter tanto prazer se entupindo de comida ou ficando longos períodos sem ela. Uma curiosidade crescente tomava conta dela e começou a ler tudo o que caia nas mãos.
Descobriu que gostava tanto de ler que podia passar horas fazendo isso, Muitas vezes varava a noite lendo e sua família demonstrava preocupação. A mãe falava, o que as mães falam quando estão preocupadas com a falta de sociabilidade de seus filhos, que ela precisava sair mais, ter amigos, etc, mas Vera continuava lendo.
Resolveu que voltaria a estudar, tinha concluído o ensino médio por pressão familiar e o fizera mediocramenteA inquietação acalmada com a leitura retornou e a todo momento ficava se perguntando que curso faria. A pergunta ficava girando em sua cabeça como um carrossel de parque de diversões, de tempos em tempos lá estava ela passando de novo, resolveu pensar seriamente sobre o assunto. Foi a um cursinho, viu o preço, conversou com o orientador que lhe arrumou uma descrição de varias profissões e lhe fez varias recomendações, que ela seguiu em parte.
Acabou se decidindo por fisioterápia, havia acompanhado um pouco do trabalho deles no tempo que ficou no hospital. A família estranhou mas resolveram não interferir e juntaram esforços para ajuda-la. Sabiam que ela tinha sofrido muito para alguem tão jovem. Demorou dois anos para passar no vestibular, queria escola publica o que não era facíl.
Neste período fez alguns amigos novos, para estudar junto, não dava muito tempo para sair, o que ela achava bom, assim não dava para sentir-se sozinha e eles ajudavam nisso. Estavam sempre brincando, fazendo palhaçada, etc para descontrair, aliviar a tensão do vestibular.
As aulas da Faculdade começaram e ela não se lembrava de já ter estado tão feliz quanto sentia-se sentada naquelas carteiras velhas. Três amigos do cursinho tinham sido aprovados também o que facilitou seu entrosamento com a turma.Adorou estudar anatomia, fisiologia, etc e estudou muito, tirou boas notas, saia com os amigos no final de semana, iam ao cinema, teatro, show de musica, sem contar as festas e aquela cerveja toda. Eles se divertiam bastante. No final do ano um grupo combinou de passar alguns dias em Ubatuba, na casa de praia de um deles.. Ela ficou com medo, não sabia o que fazer com aquela cicatriz, tinha receio e vergonha de mostra-la, tentou escapar,mas os amigo insistiram muito. Sem saída pediu socorro para a mãe. Essa achou bobagem a preocupação dela, mas acabou ajudando, levou-a em algumas lojas de primeira, dessas caras, e lá acharam maios muito diferentes, ousados nas cavas, mas maios, alguns com aberturas laterais, decotes generosos, enfim não pareciam maio de avô, eram modernos e bonitos, Vera ficou feliz e comprou dois para usar.
A viagem foi boa, a praia era linda, a areia muito branca e o mar calmo, de um verde brilhante muito bonito. A noite quando iam nadar ficaram fosforescentes, brilharam a luz do luar, eram as noctilucas que produziam aquele efeito e quando andavam na beirada do mar o rastro era prateado. era espetacular, nadando ficavam todinhos prateados, era muito lindo e eles iam todas as noites. A imensidão do mar a noite, dava medo , uma apreensão frente aquela enormidade negra e as noctilucas pintando todo movimento de prata deixava aquele momento no minimo magico.Ela se divertiu bastante e os maios fizeram o maior sucesso. Ninguém estranhou muito, pois como ela era morena não queria expor-se ao sol , mas as amigas a acharam muito recatada, não se trocava na frente delas e isso não combinava com seu jeito. Vera ficava sem graça e dizia que tinha vergonha, as amigas aceitavam, mas estranhavam, esse excesso de pudor.Vera retornou feliz, encontrara um jeito de estar com os amigos sem se expor, tinha muito medo da reação dos outros. Paulo tinha deixado uma cicatriz em sua alma.
(imagem retirada do google sem autor encontrado)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mouse de ouro

Agradeço o prêmio recebido do blog **********MOMENTO*BRASIL http://momentobrasilcom.blogspot.com e indico os seguintes blogs para recebe-lo

1) África em Poesia

2) Blog do jonuel

3)Constância Vila Poema

4)Os nascimentos das palavras






A) Publicar o Selo/Prêmio em local de destaque. B)Publicar com o respectivo endereço o blog que o indicou(importante) e C)indicar blogs que sejam tambem merecedores do recebimento.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Tirando o Pó (uma carta de amor)


Uma Carta De Amor


Pensei tanto e não consegui escolher para quem escrever.
Amo e amei tantas pessoas e teria tanto a dizer a cada uma delas que escolher uma tornou-se tarefa impossível para mim.
Resolvi então escrever sobre um dos aspectos do amor.
Não é da dor, nem da alegria que ele nos dá, tampouco o êxtase e a agonia de alguns amores,
muito menos da melancolia por saber que o destino de qualquer amor é a separação ou a morte.
Nós esbarramos na vida com pessoas, as mais variadas, algumas passam desapercebidas, outras nos chamam a atenção, algumas se vão logo e outras nos acompanham por um longo tempo, o melhor pedaço desses encontros são os presentes que algumas pessoas nos dão. Chamo de presentes as marcas e as mudanças que eles provocam.
(Falar de pai e mãe não vale, eles me deram demais, não dá para enumerar.)
Alguns encontros nos apresentam a autores, a musicas, filmes, posições politicas, filosofias, que não faziam parte de nós e que a partir deles passam a fazer, tirando o pó dos nossos neurónios, chacoalhando nossas estruturas, ampliando nosso mundo e as vezes mudando o rumo da nossa caminhada. Eles nos deixam vivos, nos põem em movimento, não permitem que cristalizemos. E se sofrer por eles, será um preço pequeno pelo muito que recebemos.
(Grafite de Jean Michel Basquiat)

vou de coletivo

Esta é uma proposta de blogagem coletiva, feita por Murillo Hildebrand de Abreu do blog "Palavras de Osho"

O tema é escolhido mensalmente, e o deste mês de Agosto é: Uma Carta de Amor.

Entre e participe.

sábado, 1 de agosto de 2009

UM CORPO MARCADO (Parte II)



Vera voltou a ajudar a família na lanchonete de propriedade deles.. Antigamente odiava ficar no balcão servindo os outros, gostava dos elogios que os homens lhe faziam, das cantadas, sabia livrar-se delas e de qualquer jeito sempre tinha algum familiar por perto para ajudar quando um afoito e "chumbado" ficasse mais atrevido, mas não gostava de servir os outros, gostava de ser servida.


Não odiava mais servir, estava feliz por voltar; poder andar, mexer-se sem dor e sem medo era muito bom. O namorado estava todo cuidadoso e tudo caminhava bem. Pela primeira vez na vida, desde que se lembrasse, ela estava se alimentando bem, sem exageros para mais ou para menos.


Continuava cuidadosa com sua aparência, vaidade feminina não vai embora assim tão fácil. Aprendeu com a avó que dizia que tinham que estar arrumadas sempre, nunca se sabe o que pode aparecer. Quando estava muito velhinha uma vizinha vinha duas vezes por semana arrumar seu cabelo e unhas, não podia nem pensar em morrer desarrumada e conseguiu ir como desejava de cabelo arrumado e batom na boca.


Uma tarde fria e ensolarada estava na lanchonete quando sua mãe chegou com a expressão muito carregada, seu coração contraiu forte e o ar ficou preso, com os olhos arregalados e fixos na mãe, esperava o soco que viria. A mãe começou a falar: O primo tinha voltado para o hospital, não estava nem um pouco bem. Vera sentiu que era uma bexiga que esvaziava e voltava para o chão, uma flor que murchava, um passáro sem asas, fruta caída da árvore. Não chorou, ficou imóvel escutando o que sua mãe dizia, escutando era bondade, a ultima palavra que entendeu era que seu primo estava mal, a partir dai ouvia mas não entendia uma palavra, seus pensamentos dispararam e varias informações e observações que ela obteve no tempo do hospital passavam velozes pela sua cabeça procurando seus pares para fazerem algum sentido Pegou a bolsa e saiu andando com a mãe, suas pernas estavam duras era difícil andar, as articulações pareciam enferrujadas, cada passo doía para ser dado. Era claro que não desejava fazer aquela caminhada.


O hospital era proxímo, mas o trajeto foi longo, estava naquele lapso em que o tempo se eterniza, finalmente chegaram, Vera conhecia muita gente lá, fazia pouco tempo que tinha tido alta e voltava sempre para as consultas de acompanhamento. As pessoas, enfermeiras e médicos foram se chegando e todos vinham conversar com ela, parecia que era a mãe e pensando bem de certa maneira era. A situação do primo era muito grave, o corpo estava rejeitando o fígado, os médicos aumentaram as doses dos medicamentos que abaixam a imunidade e as infecções oportunistas se instalaram e generalizaram comprometendo vários órgãos. Só um milagre diziam eles, e quando eles dizem isso é que não há mais nada que eles saibam fazer. Vera olhou de longe o primo na cama e ele estava amarrado. Foi perguntar por que, e lhe disseram que ele estava delirando e alucinando devido o estado de intoxicação causada pela infecção , perguntou se não tinha remédio para isso e o médico disse que tinha, mas não adiantava dar por que o fígado não estava funcionando e o corpo não conseguia metabolizar nada. O horror estava instado! Após alguns dias seu primo morreu.


Vera entristeceu, sentia como se não tivesse sido bom ou suficiente o que ela deu para ele, sentiu-se vazia.


Quando tudo voltou ao normal, Vera tentou retomar suas coisas, mas o brilho tinha se ido, fazia as coisas, mas sem muita vontade as vezes escorregava na comida, principalmente no chocolate, menos que antes, conseguia ter algum controle, mas as vezes comia sem pena dela.Um pouco de tempo depois teve alta, estava bem, seu fígado recuperado e podia praticar qualquer tipo de exercício físico o que significava poder namorar sem medo de se machucar e isto a deixou animada. Combinou com o namorado encontrarem-se no domingo e dormirem no motel, aproveitando a promoção, chegariam as 22 e sairiam as 10 da manhã. Seria otimo dormir juntinho, passar estas horas conversando,namorando. Tinha saudades dessa intimidade.


Vera e Paulo namoravam há uns três anos, se davam bem, apesar dos problemas dela e dos dele, que por sinal não eram poucos. Era de uma família de 5 irmãos, sua mãe trabalhava como faxineira para manter a casa, apesar de ser um trabalho puxado pagava bem, assim conseguia manter a casa. O pai tinha se" mandado" há uns 10 anos atrás e ai a vida ficou difícil, agora estava mais fácil com todos grandes e os mais velhos ajudando.


Paulo conseguia trabalho fácil, era falante, simpático, sempre tinha meia dúzia de piadas pra quebrar o gelo, gostava de Vera, principalmente por aquele jeito feminino e doce que o deixava apaixonado, desfilava com ela e adorava a inveja que os amigos sentiam. Ele também era muito vaidoso, estava sempre arrumado, perdia uma hora para deixar o cabelo todo para cima formando um topetinho alto e bem desenhado e haja gel! Trabalhava em um escritório de contabilidade, mas não parava muito em nenhum emprego, com a facilidade que arrumava saia, e esta era a maior dificuldade para se casarem.


No domingo encontraram-se as 18h, foram a missa e depois comer uma pizza no Degas e foram para o motel, estavam alegres. Quando entraram no quarto Vera ficou um pouco inibida, fazia tempo que não ficavam juntos assim, mas ele foi chegando, foi beijando, abraçando e ela foi relaxando, amolecendo, correspondendo e a noite foi muito boa. Na manhã seguinte enquanto ele pedia o café da manhã ela foi tomar um banho, ele juntou-se a ela pouco depois e começou a ensaboa-la e ai viu a cicatriz todinha, abaixo das costelas, ia de um lado a outro e ainda passava um pouco para as costas no lado direito e para completar no meio da barriga subia outro corte acompanhando o esterno, este não era muito extenso,tinha uns 12cm. A cicatriz além de longa era larga. Ficou horrorizado e não se conteve, falou que ela tinha estragado o corpo dela, que não havia tesão que resistisse, etc.


Vera murchou outra vez só que desta vez o coração congelou, devagar uma raiva imensa foi tomando conta dela, desandou a falar do seu sofrimento, dos dias de hospital vendo aquele monte de gente passando tão mal, que as vezes sentia-se transportada para o inferno, falou da fome, do enjoo, de sua impotência frente a morte, ele tentou acalma-la, disse que estava brincando. Não adiantou, ela viu seu olhar de repulsa quando tocou a cicatriz. Quando conseguiu parar de gritar pediu que a levasse embora, fizeram o caminho de volta em um silencio tão intenso que quase se podia toca-lo. Chegando em casa, antes de sair do carro Vera disse para Paulo que seria melhor eles " darem um tempo", que havia acontecido muita coisa na vida dela e ela precisava se descobrir outra vez. Ele concordou e Vera saiu do carro com uma certa tristeza e muita raiva ainda, sabia que era adeus para sempre.


Entrou em casa e viu satisfeita que todos estavam fora, foi para seu quarto sentou-se na cama e chorou, chorou de raiva, de ódio mesmo, pela dor, pela decepção, pelo sofrimento, pela morte do primo, a vida lhe parecia muito feia, Chorou mais de hora, acabou adormecendo e quando acordou seu coração estava mais calmo. Lembrou-se de todo o ocorrido, refez toda história e aí foi invadida por um sentimento diferente, pensava em tudo o que o primo viveu e tudo o que ele deixaria de viver, e chorou não por te-lo perdido, mas pela vida que ele perdeu, não sentia pelo que acontecia com ela, mas sentia pelo que ocorreu com o outro e deslocando seu olhar assim. pode reconhecer o quanto ganhou com essa longa e triste experiência. Seu coração desta vez acalmou de fato e reconciliou-se com a vida.
(quadro de Salvador Dali)