terça-feira, 31 de agosto de 2010


Duplix por: Hod & Angela


( tela de Lourdes de Castro)


Vãos // Anseios

espreito frestas abertas // incompleto ser

gravito, lua longínqua luz // procuro palavras

varo noites por vãos // sucumbo, imensidão vital !

O amigo Hod do blog O Olhar de Carpe Diem Para o Século XXI sugeriu que fizéssemos um Duplix. Com sua paciente ajuda aí está. Foi um desafio e um prazer tê-lo feito com um amigo tão gentil.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Se o fusca falasse...


Eram duas amigas, Maria e Elisa, amigas de alguns anos. Maria pediu a ajuda de Eliza para uma “empreitada” que planejara. Elisa arrepiou, sabia que viria confusão pela frente, mas também sabia que acabaria ajudando como sempre.

Maria estava interessada em Jorge um rapaz de cabelos pretos encaracolados, pele bem clara e bochechas rosadas, era descendente de italianos e cuidava de um deposito de vinhos de sua família numa rua próxima a casa dela. Conversara com ele na padaria e queria um novo encontro e quem sabe um convite para sair no sábado e para tanto necessitava de uma nova chance.

Na quinta-feira à tarde Maria pediu o fusca vermelho da mãe emprestado e junto com Elisa foram dar andamento ao plano, que consistia em parar na rua do Jorge e fingir que o pneu estava furado. Assim fizeram, e para dar realismo esvaziaram o pneu traseiro, retiraram o estepe do porta-malas e soltaram os parafusos do pneu furado. Suaram e sujaram-se bem.

Jorge passava muitas vezes pela rua era uma questão de tempo e paciência (o que não se tem muito aos dezoito anos). Lá pelas tantas já meio cansadas e distraídas com suas conversas ele passou retornando de algum lugar e não as viu.

Cansadas trocaram o pneu, levaram o que estava vazio para o posto de gasolina e enquanto o enchiam viram o Jorge passar de carro. Resolveram retornar e lá foram elas. Repetiram tudo, esvaziaram o pneu traseiro e começaram a troca-lo. Desta vez deu certo. Jorge as viu quando retornava e parou para ajudar. Estava junto com Carlos um amigo, um rapaz loiro de olhos claros e cabelos bem lisos bem bonitinho. Trocaram o pneu e levaram para o posto, elas preferiram tomar Coca-Cola no bar evitando retornar ao posto com o pneu com receio de ouvirem alguma piada do frentista.

Todo esse esforço deu certo, Jorge e Carlos as convidou para saírem no sábado e Elisa viu que continuava na história da amiga e como não tinha nenhuma coisa marcada e era sua amiga resolveu ir. Chegado o dia foram a um barzinho e ficaram tomando cerveja e comendo petiscos e conversando e rindo muito. Acontece que Jorge começou a sorrir e olhar muito para Elisa e ela começou a ficar incomodada e tentava chamar a atenção de Carlos e foi ficando preocupada. O passeio estava virando um pesadelo.

Resolveu chamar a amiga para acompanha-la ao banheiro (meninas nunca vão sozinhas) e pediria para irem embora. Lá chegando Maria toda alegre e entre risadas perguntou se Elisa se importaria de trocar. Estava gostando mais do Sergio que do Jorge. Elisa respirou aliviada e aceitou a troca, afinal estava nessa pela amiga. Retornaram a mesa ainda rindo e eles ficaram curiosos com aquela risada toda e devem estar até hoje.

Saíram muitos outros sábados. Maria e Carlos não resultou em nada mais que uns encontros. Jorge e Elisa namoraram um bom tempo e foram muito apaixonados, mas um dia acabou por conta de outros amigos, porém isso é outra estória...



(foto Google- Rubem Dualibi)

domingo, 22 de agosto de 2010

Inominável



Do prazer tirou a alegria

o belo transformou em feio

a inocência virou pecado

a alma leve que brincava

escondeu-se


aniquilou-me

em pedaços me partiu

multiplicada em mil

em cada pequeno fragmento

a dor inteira ficou


naqueles que atiraram a pedra

o terror penetrou

a crueldade se alojou

a vingança primitiva

acordou

ecoou

e

ruge

urge

clama

suplica

por mais suplicio.


e aquilo que um dia foi alegria

escondido

disfarçado

transformado

em sórdidos desejos

secretamente

silenciosamente

covardemente

goza




1 - As primeiras leis que tentaram reger a vida social é o conhecido Código de Hamurabi a lei do talião, que significa "tal e qual". Olho por olho, dente por dente. É um conjunto de regras com as punições correspondentes a suas infrações. Apesar de seus quase 4000 anos e terem suas origens na mesma região é em muitos aspectos mais tolerante que a atual.

No Irã condena-se a morte adúlteros e homossexuais.



(foto retirada do Google-Código de Hamurabi)


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Bloggincana de Agosto


TAREFA da BlogGincana de AGÔSTO promovida pelos blogues VARAL DE IDÉIAS e EXPRESSO DA LINHA

Escolhi as três cidades que me formaram, que mais influencia tiveram em minha vida e em minha maneira de ser.


A primeira delas é Itápolis. A cidade que nasci e onde vivi os primeiros 10 anos da minha vida. Lá tive minhas primeiras lições sobre a vida. Uma cidade pequena, calma em que pude brincar a vontade e todo mundo tomava conta de todo mundo (isso nem sempre era bom) As regras eram claras e rígidas e eu nunca fui muito boa no quesito obediência, então conheci muitos castigos e hoje em dia penso que eles de alguma forma me fortaleceram. O padre era figura proeminente e dois grupos políticos dividiam a cidade. Nascemos em casa pois na época o hospital da cidade pertencia ao grupo político contrario ao do meu pai. Brincava descalça (até hoje é a primeira coisa que faço quando chego em casa, tiro o sapato), subia em árvores, pegava a fruta do pé, cuidava dos cachorros, andava a cavalo e no meio do pasto, claro que com certo receio do touro. Vi o café ser colhido e ficar secando, todo aquele trabalho duro na terra. A cidade mudou depois que a TV chegou por lá e saiu daquela mentalidade dos anos 30/40 para os anos 70, mas eu já não estava por lá.


A segunda é São Paulo, onde aprendi primeiro o que era solidão e tédio mas que desenvolveu definitivamente meu prazer pela literatura. Depois veio o resto todo, os namoricos, casamento, amigos, faculdade, trabalho, filho a vida adulta e agora aprendo a envelhecer. Teve um tempo em que eu pensava que não poderia viver em nenhum lugar que não fosse nessa cidade, com tantas
coisas para fazer e ver. Vivo no mesmo bairro há muitos anos e verifico que acaba ficando parecido com uma cidade do interior, conheço o moço da farmácia, a vendedora da loja de roupas, o caixa do banco. o dono da padaria, o da ótica, etc.Entretanto quando entro em uma fila para assistir um filme, ando por uma rua cheia de carros, já acho que tem gente demais, tudo demais nesta cidade e aí me pego sonhando com outras paragens.

.
A terceira cidade é Paris, que além de linda e romântica me ensinou nos anos 70 que a vida podia ser diferente daquela que eu conhecia. Eu estudava na USP e eram os anos de chumbo da ditadura militar, tomava-se cuidado com o que se falava, muita gente sumida, professores exilados ou presos e a censura agia a vontade proibindo filmes, livros, interferindo nas TVs, nos jornais, etc e claro que como nunca fui muito obediente...Então não me esqueço que estava no metro de Paris com um livro sobre os Tupamaros e preocupada em esconder o título quando me dei conta que não precisava fazer isso ali e comecei a ler muito feliz. O mundo podia ser diferente daquele que eu conhecia. Podia ser melhor.


(fotos retiradas do Google)

sábado, 14 de agosto de 2010

Outros Tempos

Sua idade era indefinida para as crianças só existem três idades, a delas, a dos adultos e a dos velhos. Então para elas ele era um adulto e elas tinham certo receio dele.

Na pequena cidade de ruas largas e arborizadas as crianças corriam soltas, os carros eram poucos e os perigos passavam longe. Seus medos ficavam por conta das histórias de assombrações, dos castigos dos pais, das ameaças do padre e claro, da imaginação deles próprios.

Era nesta ultima categoria que entrava a figura do barbeiro da cidade. Um homem magro de meia idade, estatura mediana, cabelo preto penteado para trás melado de brilhantina, não saia um fio do lugar, só saiam em mechas, bigodinho fino bem aparado. Vestia-se sempre de calça preta social e camisa de manga comprida branca, apesar do calor que lá fazia. Uma roupa surrada, mas bem lavada e bem passada, tinha uma maleta preta onde carregava seus instrumentos quando ia atender algum cliente na residência. Até aí era como muitos, mas a unha do dedo mindinho... Era onde residia o inusitado, era grande, muito grande, maior que a das mulheres. Uma única unha grande e este detalhe causava todo o temor e atiçava a imaginação.

Não entendiam como os pais iam à barbearia e ficavam por lá folheando revistas, conversando e rindo e os rapazes também gostavam. Parecia que tinha um feitiço que tendo entrado uma vez voltariam toda semana. Os meninos prometiam entre si que nunca iriam por os pés naquele lugar, mas ardiam de curiosidade e assim foi por muitos anos. Quando a barba ficava espessa o pai levava o filho à barbearia e o pronto. Acontecia de novo.

Os tempos mudaram as revistas de nu feminino começaram a ser vendidas na banca, falava-se de sexo mais livremente e o feitiço da barbearia acabou.


(foto retirada do Google-Capa da Primeira Playboy- 1953-Marilyn Monroe)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma tristeza atual



Mahmoud Ahmadinejad



A intolerância seu norte

o ódio seu leme

seu barco

o corpo de uma mulher


(foto Google)

sábado, 7 de agosto de 2010

O Peixeiro e a Sereia


Matilde é uma dona de casa cuidadosa, dessas que tem um ritmo diário próprio. Cuida da casa, dos filhos e ainda da aulas particulares para ajudar no orçamento domestico.

Tem uma aparência agradável, mas nada muito sofisticado. Roupas simples e praticas, cabelos quase sempre presos.

Muito diferente da vizinha D. Marilu, uma mulher sempre de salto alto, roupas justas, decote generoso a ressaltar as curvas fartas. Quando ela sai os homens sempre a olham, alguns disfarçadamente, outros descaradamente e ela segue com a naturalidade de quem se acostumou com os olhares.

A rua que reside é de um bairro da periferia, é tranqüila, passa poucos carros e tem pouco comercio por perto. O asfalto chegou há pouco tempo e apesar das muitas casas mantém certo sossego. A praia fica longe e a algazarra dos turistas mal chega por lá.

Um menino vem cedo e de bicicleta distribuí o jornal. O padeiro manda entregar o leite e o pão e o peixeiro passa com seu carrinho todo final de tarde. Marilu sempre sai para comprar peixe, adora peixe. Ficam tempos conversando com o vendedor de peixe e com o marido de Matilde. A conversa corre solta, são casos e mais casos, muitas risadas, caras e bocas e o peixe quase que estraga...

Matilde começou a ficar incomodada com aquela conversa, mas não sabia o que fazer, sentia o "clima" que emanava daquele trio. Quando tentava falar alguma coisa o marido a olhava como se ela estivesse louca e argumentava que o marido de Marilu não se importava e ela com aquela malicia toda. Ficava quieta e no fundo achava que o marido de Marilu era uma “anta”, um tonto. Estava vendo a hora que iria brigar feio com o marido, fez tentativas de participar das conversas, mas tinha que voltar para o fogão. Retornava com o peixe e eles ficavam lá proseando e a prosa parecia de fato inocente, eram sempre historia de peixes, pescarias e pescadores, mas havia "algo" no ar que ela não sabia precisar.

Chegou a época de férias e D. Marilu viajou para a casa de parentes junto com o marido e Matilde respirou aliviada. Teria um mês de folga. O peixeiro continuou vindo mas as conversas ficaram mais curtas. Passado o mês Marilu voltou das férias, sem o marido. Dizem que se separaram. Arrumou emprego de corretora de seguros e o peixeiro comprou um celular e agora só faz entrega em domicílio. Matilde está tranqüila aquela conversa acabou, o marido não toca no assunto, nem ela para não criar confusão.

E todo fim de tarde o peixeiro leva o peixe para D. Marilu.


(tela Di Cavalcanti- Mulher deitada com peixes)


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma conversa



Um poema de Edmar Oliveira publicado no mirada anterior


Bombaquim, bombaquim, deixa nós passar...

.

Tudo bem, envelheci

E esperava uma morte tranqüila

O que já era brincadeira na infância

..

Brinco de bombaquim[1] na velhice

“Carregado de crianças pra Jesus criar...”

Pêra ou maçã?

Não conhecia as frutas que nos levavam atrás das escolhas

...

Mas vejo as doenças que levam meus amigos “pra Jesus criar”

Sei que minha vez vai chegar (de escolher o céu ou inferno), como no bombaquim

Mas é que tô ficando sozinho

E é muito ruim

Não poder mais brincar...

*

(edmar)


[1] Uma brincadeira muito nordestina em que uma fila de meninos passam em baixo de um arco feito por dois meninos que perguntam ao último, a quem prendem, se ele quer uma fruta ou outra. Conforme a resposta, o interrogado passa a fazer parte do "cabo de guerra" da criança que foi escolhida (sem saber) para uma briga final. A melhor explicação pra “bombaquim” seria a tradução “bom barquinho”. Porque o passante na brincadeira ficava de um lado ou de outro dos dois que perguntavam os que cantavam “bombaquim, bombaquim, deixa nós passar, carregados de filinhos pra Jesus criar”: se pêra atrás de um, maçã, atrás do outro. Podia ser qualquer fruta. As mais difíceis, que não conhecíamos no nordeste era pra dificultar a escolha. Como se em cada margem do rio...





Inspirado no poema Bombaquim escrevi:




É tempo de olhar os campos
sentir a pele aquecer ao sol
ouvir os pássaros
refrescar-se no mar.

os lugares não reconheço
os caminhos já são outros
fala-se de outro jeito
muitos não me escutam
a musica que gosto não ouço
muitos amigos se foram
as brincadeiras são outras

meu mundo está sumindo
e junto com ele vou indo
resta-me o que é perene
a lembrança
o riso das crianças
e por sorte

as descobertas
que as vezes me apaixonam

Angela


(tela Lourdes de Castro-Google)