quarta-feira, 25 de maio de 2011

Enrosco



Queria tanto ouvir a pergunta...tanto...

livrar-me desse engulho

desse nó de enforcado

que ainda me prende


Pergunte ...

e eu lhe direi :

que não quero nada

que não espero nada

que não estou no jogo

que estou em outra


Pergunte...

mas você não pergunta…



domingo, 22 de maio de 2011

Momentum


Fica o dito pelo não dito

o feito pelo desfeito

você realmente acredita

que mudar a historia

apaga a memoria?

que não falar do feito

desfaz o fato?

que rasgar o retrato

refaz o ato?

que com o homem morto

morre o sonho?


Que tolo!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Teorema da Incompletude


Ai! Esta eterna desconfiança de mim mesma

esta impressão de sempre

deixar algo para trás

uma palavra por dizer

um adeus não dado

um gesto por fazer

um carinho negado

um desaforo não respondido

algo esquecido em algum lugar

tudo é tão incompleto

sempre falta

sempre estou em falta

e o pior o pior de tudo

o que mais atormenta

é aquilo que esqueci

e sei que esqueci.

e não sei o que é.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Tempos Modernos.

Ela não era muito chegada nessas modernidades eletrônicas como a maioria das pessoas nascidas antes da década de 70. Faltava-lhe um chip ou algo do gênero acrescido do fato de não gostar de mudanças, por ela tudo permaneceria igual e teve o azar de nascer em uma época em que tudo muda muito rápido. Qualquer criança era melhor que ela. Tem medo desses objetos que não entende como funcionavam. Aprendeu a usar o computador para coisas básicas. Morria de medo de ficar como aqueles idosos que não tinham coragem de descer pela escada rolante da Prestes Maia (uma das poucas dos anos 60) e vacilavam na beirada dela com aquele mundaréu de gente atrás esperando para descer. Não queria ficar assim em frente ao caixa eletrônico.

Claro que pagou todos os “micos” que quem é dessa geração sabe quais são e quem não é também sabe por que teve que socorrer uma tia, a mãe, o pai etc.

E-mail?! Grupos sociais?! Ela demorou uns dez anos para começar a usar e isso só aconteceu por conta do encontro da turma de faculdade. Fax só o da papelaria perto de sua casa e porque o rapaz passava para ela. A tal da modernidade foi entrando em sua vida numa velocidade que não conseguia assimilar.

O telefone celular foi outra história. Resistiu o mais que pode, achava desnecessário e não gostava daquele aparelho. No aniversário deste ano (isso mesmo deste ano) ganhou um celular dos irmãos. Argumentaram que a mãe estava idosa e que eles já não eram tão jovens e que um celular poderia ser de grande valia principalmente para ela que morava sozinha.

Aceitou meio ressabiada e devagar foi aprendendo a usá-lo, não sem antes fazer algumas confusões típicas. Não conseguia que o telefone só tocasse, ele vibrava e tocava e ela tinha medo de mexer nisso, enviava mensagem para a pessoa errada e uma vez chegou a fotografar seu pé e enviar para seu irmão sem perceber e ele a reconheceu pelo sapato. Maior vexame. Assunto do almoço de domingo... Seus sapatinhos enviados por engano.Um dia tentou subir a escada rolante de um Shopping pelo lado errado distraída que estava tentando atender uma chamada. Vexame total!

O pior é que o celular a deixava tensa achava que não podia separar-se dele e o levava para todo lugar. Ele possuía lugar de honra na mesa de refeição, na do escritório e até na mesinha ao lado da cama. O problema era arrumar um lugar para ele no banheiro, se entrava no chuveiro o colocava no assento sanitário, mesmo achando o lugar inadequado, mas quando ela estava usando o assento era o maior problema, se o colocava no chão receava que molhasse ou que distraída pisasse nele. Resolveu que o melhor lugar seria na pia, na parte mais larga dela, cuidava de secá-La e punha seu celular lá. Assim foi por vários dias até que um dia ele tocou. Tocou não! Começou a vibrar e tocar e pulava feito um doido, parecia que tinha adquirido vida própria e saltava mais que criança pisando em areia quente, demorou um pouco para ter condições de levantar-se. Conseguiu evitar o desastre e segura-lo a tempo. Só não conseguiu segurar o mau-humor. Decidida aposentou o celular.


PS Sinto ter perdido os comentários dos amigos que passaram por aqui ontem. Penso que depois desses dois dias, os transtornos da minha personagem ficaram por demais simples. A Blogger ganhou de longe e essa modernidade pega a todos até os modernos. .

domingo, 8 de maio de 2011

Para Rafaela



Mergulho em agua fresca

Sem receio de me afogar

Não existe morte

Nas ondas de seu olhar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Semelhanças


As pequenas gotas brilhavam nas grades do portão. Eram tão transparentes, tão puras como cristais pequenos. A luz do sol chegava ate elas, uma luz de fim de tarde de verão quando o calor e a claridade já não machucavam. Ficavam ali penduradas desafiando a gravidade.

Uma garoa fina e bem espaçada caia e refrescava ainda mais o dia. Sai andando aproveitando aquele tempo ameno e contornei o quarteirão. Acendi um cigarro (maldito vicio que pensei ter me livrado) e enquanto aproveitava meu pequeno intervalo vi uma mulher que me pareceu conhecida. Tinha o cabelo escuro, ondulado, farto e curto, a pele clara mais ou menos a mesma altura, peso e idade de uma amiga de trabalho perdida em algum volteio da vida. Chegando mais perto vi que não era ela e que deveria estar com a aparência diferente depois de tanto tempo.

Sempre acho estranho como vou encontrando “conhecidos” pelas ruas. É como se houvesse alguns padrões que se repetem e que com o tempo a gente esquece as particularidades. Ficam na memoria os traços gerais: o padrão. E é justamente esse esquecimento das particularidades que possibilita que eu imite as pequenas gotas desafiantes e por um segundo seja eu a desafiante das leis da natureza e reveja pessoas que já se foram e mate um pouco a saudades.